Jornal de Nisa

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Lealdade!

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Julho, Agosto e ainda em Setembro, a par dos ecos das subidas das taxas e dos impostos, das dificuldades financeiras das famílias, dos conflitos que matam com balas e com privação dos mais básicos direitos humanos, são meses em que, nem que seja por umas horas, na noite, no fim-de-semana, no baile, na esplanada, na tourada ou nos inúmeros convívios onomásticos, de artilheiros ou “de quem queira conviver”, estas notícias negativas são abafadas pelas notas musicais, pelo pezinho que puxa para a dança e pelos brindes que se fazem entre amigos e familiares que por esta época se reencontram na terra natal.

Embora não seja habitual, este mês não domina neste nosso ponto de encontro um tom de optimismo e esperança! Será das conjunturas que subjugam o concelho, o país e o mundo, ou simplesmente da meteorologia estranha que marcou Agosto? Não sei, mas alguma coisa conseguiu oprimir-me num sentimento controverso que se divide, em partes iguais, entre a desilusão que conduz à resignação e a vontade de não desistir.

Dizem-me muitas vezes que sou demasiado amena e subtil na expressão de opiniões. No entanto, não é por tal característica que deixo omissas quaisquer considerações que julgue pertinentes e não são precisas palavras hostis para verbalizar qualquer que seja o pensamento, a opinião, mas, sobretudo, a verdade!

Talvez andemos todos baralhados e perdidos no meio de tantas más notícias e opiniões diversas. Afinal, quem é que nos diz a verdade? Para mim a verdade (de algo em concreto) é apenas uma; admito que possam existir diferentes perspectivas, mas, ainda assim, são sempre sobre a mesma verdade, sabendo todos nós que, incontáveis vezes, são reproduzidas como verdades muitas “cenas” de pura ficção e imaginação de alguém menos leal.

Verdade e Lealdade são das palavras mais bonitas da nossa língua – sendo que a Saudade vence as demais por ser única no mundo (e cujo significado os nossos emigrantes tão bem conhecem) –, talvez não tanto pela sonoridade, mas muito, muito mais pelo seu significado, que muito prezo e que não sendo características genéticas, não são inatas na quantidade que se desejaria.

Ser leal é muito mais do que ser verdadeiro, fiel, sincero, honesto… conjuga tudo isto e aquilo que hoje vai faltando cada vez mais: a matéria inexplicável de que são feitos os lutadores, que vão sendo sufocados pelas forças da desistência e da resignação, porque a lealdade agora se resume à satisfação dos interesses de alguns em proveito próprio.

Escreveu Miguel Esteves Cardoso que “só se é realmente leal quando se está sujeito a alguém ou a algo”. Talvez seja por esta sujeição, com o egoísmo que impera actualmente, que “é muito difícil ser-se leal, mas só porque é muito difícil seguirmos o coração. A lealdade é um amor que esquece o mundo”.

Também Florbela Espanca ao afirmar que “Ser poeta é ser mais alto, é ser maior do que os homens!”… referia-se à lealdade do poeta à voz do seu coração…

A lealdade é um bem de valor cada vez mais elevado, talvez por ser cada vez mais raro. E é por ser leal à minha crença de que podemos sempre mudar para melhor, que vos deixo com uma nota de optimismo: não desistam de lutar, mesmo quando estiverem cansados ou a luta seja assustadora pois, como José Luís Peixoto escreveu há já alguns anos e eu subscrevo plenamente: “O pior medo é o medo de nós próprios e a pior opressão é a auto-opressão. Antes de se tentar lutar contra qualquer outra coisa, penso que é importante lutarmos contra ela e conquistarmos a liberdade de não termos medo de nós próprios”.

Até Setembro!

Ana Aldeia
[Publicado na edição de 26 de Agosto de 2011 do Jornal de Nisa (n.º 28, II Série)]

 

 

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