Jornal de Nisa

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Apicultura: do cortiço para a colmeia

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Este mês, a nossa rubrica inverte o caminho que nas anteriores evidenciámos; desta feita, não vamos falar de uma arte moribunda, mas, pelo contrário, exaltamos o trabalho levado a cabo por alguns apicultores no Norte Alentejo, que se associaram, para evitarem o desaparecimento desta arte secular.

Foi no seminário promovido pela APILEGRE (Associação dos Apicultores do Nordeste do Alentejo) e pela Associação Vamos à Vila, em Montalvão, que estivemos à conversa com José António Vicente actual Vice-Presidente da APILEGRE, profundo conhecedor e um dos principais defensores das questões que motivaram a assumpção de determinadas acções por aqueles que, em dado momento, temeram que o concelho de Nisa deixasse de ter esta arte da manutenção dos muros apiários.

Se actualmente verificamos que os concelhos de Nisa, Castelo de Vide, Crato, Portalegre, Arronches, Monforte, Marvão, Elvas e Campo Maior estão associados e procuram a defesa de interesses comuns, nem sempre foi assim.

A ideia de revitalização, surgiu por parte de alguns apicultores que já tinham tido experiências associativas e que em 1998 decidiram fundar a APILEGRE e contribuir para a revitalização da Federação Nacional de Apicultores de Portugal. Começaram por investir na formação técnica na área do acondicionamento, do licenciamento, do ordenamento apícola e de nova legislação geral e específica. Ontem como hoje, procuram incentivar o aparecimento de agrupamentos de produtores por entenderem que é através do associativismo que se protegem os pequenos produtores, ajudando a escoar a sua produção, a adquirirem factores de produção mais baratos e eficazes e a dotá-los da capacidade para concorrer a ajudas de apoio à subsistência da sua produção. A polinização feita pelas abelhas é cada vez mais considerada junto dos fruticultores. Por exemplo, no Norte Alentejo, a polinização dos castanheiros é muito importante pela qualidade da castanha que se produz e pelo que tal constitui em termos comerciais.

Com o passar dos anos e com a dedicação de alguns apicultores, Nisa tornou-se um caso de referência a nível nacional, nomeadamente por serem pioneiros no projecto de colaboração com a universidade de Évora na criação de Rainhas o que exige profundos conhecimentos (para isso fizeram formação em França), trabalho e dedicação já que na Península Ibérica existe uma espécie de abelhas a apis meliifera iberiensis e era importante apostar na sua criação para que não desaparecesse.

Com os incêndios que devastaram o concelho em 2003 chegou a temer-se o pior. Muitas colmeias perderam-se, bem como a flora que as sustentava. Contudo, graças em primeiro lugar ao apoio das Câmaras envolvidas (em especial a de Nisa) e depois pelo seu papel reivindicativo, a APILEGRE conseguiu captar linhas de apoio que permitiram a manutenção desta actividade.

Com a sua sede no mercado municipal de Nisa, a Associação vive das quotizações dos seus associados e dos programas apícolas a que se candidata todos os anos, apostando no comércio e na formação na área da criação das Rainhas, o que permite suportar os encargos com os dois técnicos licenciados que mantém a tempo inteiro, já que este é um trabalho que não admite amadorismo, exigindo um controle diário rigoroso, essencialmente por razões fitossanitárias.

Nisa tem grandes potencialidades a norte e nordeste do concelho. A flora de rosmaninho proporciona um mel com características únicas, e com base na cartografia dos “muros apiários” conclui-se que só em Montalvão estão cerca de 50% dos muros registados no Parque de S. Mamede.

A produção de Rainhas seleccionadas é, percebe-se pelas palavras de José Vicente, um sector da apicultura apaixonante pelos processos minuciosos que envolve e que requerem o domínio da biologia das Rainhas Obreiras e Zângãos, mas que está ao alcance de qualquer apicultor mais curioso e/ou interessado em melhorar as características produtivas e os seus efectivos, aumentando também a rentabilidade das suas explorações.

No entender de José Vicente, é fundamental o apoio da investigação científica para a correcta delineação de procedimentos que assegurem a produção das rainhas de qualidade, a sua disponibilização aos apicultores interessados e muito particularmente aos criadores de rainhas que se dedicam à sua produção em quantidade. Algo que não é do domínio público é o facto de presentemente este ser um negócio rentável, pois possuir uma Rainha de qualidade, permite ter um enxame produtivo e coeso. A criação em laboratório de Rainhas, facilita a qualidade, o desdobramento de enxames e, em consequência, o incremento da produção.

Gisela de Sá

 

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