
José Maria Sales Ferreira Pereira nasceu na Freguesia do Espírito Santo, em Nisa, há 58 anos.
Órfão de pai aos 5 anos, foi levado por uma tia (a quem sempre considerou mãe) para a Cova da Piedade. A sua mãe e a sua irmã permaneceram em Nisa, mais propriamente a viver na Santa Casa da Misericórdia, onde a mãe trabalhava de manhã até a altas horas da noite como, era habitual à data.
O desejo de voltar sempre foi grande, mas os tios dedicados, tudo fizeram para que continuasse os estudos. Aos 14 anos regressou, mas as condições precárias da família obrigaram-no no imediato a trabalhar. Assim, conseguiu ser aceite como aprendiz de Dinis Silvestre Catarino, primo relojoeiro no Crato, que viria a ser o seu mestre e a quem deve o seu saber e a sua profissão de uma vida. Com ele aprendeu a arte do ofício, mas também a arte de lidar com as pessoas. Ainda hoje nutre grande carinho pelas gentes daquele concelho vizinho. Nesses tempos, ia com seu primo, de porta a porta pelas freguesias do Crato, em dias marcados, para vender ouro e para receber e entregar as peças para conserto.
Ansioso por melhorar a vida, o seu mestre partiu para Angola e, aos 19 anos, José Maria Sales teve de regressar a Nisa indo trabalhar com o Senhor Pina.
Já casado e prestes a ser pai, vai fazer tropa em Angola no inicio de 1974. É colocado como rádio telegrafista e será nessas funções que se apercebe de que algo se passara em Portugal no dia 25 de Abril de 1974, embora só bastante tempo depois venha a saber os pormenores.
Em 1976 regressa a Nisa, com doença contraída em serviço mas que nunca lhe proporcionará uma reforma. Volta para a ourivesaria do Senhor Pina, mas os tempos conturbados no país reflectem-se na sua profissão. Desenvolve as suas capacidades e aperfeiçoa conhecimentos, aí aprende a soldar ouro, prata e ouro branco, algo que não era comum naquela época.
Passado algum tempo, cria um negócio com o colega Serra, para reparação e venda de relógios e acessórios. Rapidamente passam a vender e reparar também máquinas de costura Singer, facto que depressa os lança noutro tipo de mercado e que assim se manterá até que a marca comece a fazer grandes exigências aos concessionários, e tenham de abandonar a representação, já que o volume de negócio no concelho não lhes garante a concessão.
Pouco depois, também o senhor Serra opta por um negócio autónomo e José Maria Sales fica sozinho na sua profissão. Deixou de vender as Singer, mas ainda hoje podemos vê-las nas prateleiras da sua oficina (sita no Largo Dr António Granja n º 12), representando várias épocas, e sempre pronto para as reparar, se tal for preciso.
Mas a sua grande paixão são os relógios e um em especial. Há 10 anos que faz a manutenção da Torre do Relógio da Porta da Vila. É o responsável por lhe dar corda duas vezes por semana e, uma vez por mês, efectua uma limpeza geral.
De cada vez que sobe à torre tem de fazer a verificação de tudo, ou seja, desde a luz, à limpeza do espaço, à lubrificação dos cabos, e estar sempre atento a possíveis avarias que denota só pelo tocar dos “quartos, ou das horas!”
Já teve a responsabilidade da manutenção de outros relógios de concelhos vizinhos, mas o preço da evolução dos tempos também aqui se verifica: “deixam ficar a máquinaporque é sempre bonita de se ver e depois ligam-na a um computador e esse é que passa a ser o verdadeiro relógio”
“Um relógio de quatro mostradores como o nosso não é vulgar” e por isso é frequentemente procurado por visitantes e turistas. Também é interessante saber que toca aos quartos de hora e repete as horas, o que também o torna um exemplar já raro. “Seria interessante que todos pudessem ver a máquina, mesmo quando eu não estou. Bastaria que a porta tivesse um vidro que o permitisse e que as escadas não fossem tão perigosas”.
Nunca teve aprendizes, só o filho, mas não resultou. Era muito exigente, talvez porque soubesse pela experiência que é uma profissão que exige muita dedicação. Noutros tempos, chegou a perder noites para cumprir prazos no arranjo dos relógios. À data, tirava um bom ordenado, equiparado ao de um professor e era uma profissão reconhecida e valorizada. Hoje a realidade é completamente diferente. Actualmente o conceito de relojoeiro é aquele que substitui uma pilha de um relógio.
Até as peças são já difíceis de encontrar. As grandes marcas ainda as têm mas já não as vendem a particulares. Assim, os acessórios são cada vez mais difíceis de obter, embora haja verdadeiros artistas que são capazes de as fazer manualmente, o que nos explica não ser o seu caso.
Arranjar a mecânica de um relógio é hoje, também por isso, um grande desafio e “as pessoas já só se preocupam em arranjar as peças de grande valor estimativo”, diz-nos com tristeza. Está bem patente que José Maria Sales adora esta profissão, e mesmo não tendo trabalho, abre relógios velhos para ir mantendo as mãos e o saber “afinados”.
Gisela de Sá











