Jornal de Nisa

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João de Gáfete - Uma vida a entrelaçar fios

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Na sua oficina no Largo da Devesa, em Nisa, fomos descobrir João Maria Vinagre Carrilho, mais conhecido por “João de Gáfete” (porque aí nasceu há 78 anos) ou por “cadeireiro”, por ser um artesão que fabrica cadeiras.

Nos tempos da sua juventude, vivia-se da agricultura e da criação de gado, e embora tenha frequentado a escola até aos 12 anos, pouco tempo efectivo lá terá andado, pois eram muitos os serviços a que tinha de acorrer para ajudar no sustento da família.

Quando o trabalho do campo começou a escassear, o pai lançou mãos à arte que por sua vez também havia aprendido com seu pai e transmitiu-a a João Maria. Foi o único dos cinco filhos que aprendeu esta arte, talvez por ser o mais velho e ter sempre de cumprir as ordens, sem lhe ser dada a oportunidade de ter escolhas próprias.

Anos mais tarde, numa apanha de azeitona em Nisa, apaixonou-se por uma rapariga da terra e como tal, para aqui transferiu a sua vida para não a “deixar fugir” restando-lhe a alcunha “João de Gáfete”.

Continuou a trabalhar na agricultura, mas nunca deixou de parte a sua arte. Só quando se reformou, decidiu dedicar-se-lhe a tempo inteiro nunca tendo mãos a medir para as encomendas.

Este moroso processo, executado com a maior minúcia por João de Gáfete, começa pela apanha do “Buinho” da “junça”, ou da “atabua” nas ribeiras do concelho. Depois, são esticadas e conservadas no “secador” durante pelo menos um mês, em que, num verdadeiro ritual, são viradas diariamente para que a secagem seja alcançada de modo uniforme. No final, atam-se em molhos que se dispõem com cuidado e assim se armazenam, prontos a ser entrelaçados e a formarem os fundos das cadeiras ou dos “mouchos”, sendo a técnica diferente em cada um dos casos.

Diferente é também a madeira utilizada para a estrutura da cadeira: de eucalipto, castanho ou pinho, escolhida conforme o tipo de trabalho que se pretende, vem da serração da Portagem. Noutras épocas, perdia muito tempo em viagens para preparar as madeiras. Depois, foi considerado artesão e assim usufrui da possibilidade de as cortar e preparar na carpintaria da Câmara Municipal de Nisa, o que facilita em muito o trabalho e reduz o tempo de concretização da tarefa.

Noutros tempos, João de Gáfete “punha de pé” duas cadeiras por dia. A procura era muita, assim como a saúde. Agora, não obstante o seu corpo evidenciar algum cansaço, os olhos muito vivos acompanham a sua voz na paixão. Mostra-nos, por exemplo, o orgulho que tem no “Bilro” da cadeira que não é feito por nenhuma máquina, mas manualmente.

Dos seus seis filhos nenhum lhe seguiu as pisadas. Ainda tentou ensinar um neto pequenino, mas logo no primeiro dia adormeceu enquanto ouvia os ensinamentos do avô… O seu nome e a sua obra, constam das publicações do IEFP sobre o artesanato português e ali é referenciado como um dos artesãos mais idosos do país ainda no activo.

Apesar de já não frequentar as feiras de artesanato por motivos de saúde, continua a receber diariamente cartas com encomendas de todo o país que vai cumprindo ao seu ritmo, sempre com a mesma calma, simpatia e boa disposição, que lhe são características.

Gisela de Sá

 

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