
Francisco da Graça Ribeirinho nasceu em Nisa a 7 de Outubro de1925. Teve cinco irmãos (eram 4 rapazes e 2 raparigas) filhos de um casal que vivia do trabalho de lavoura.
Andou na escola em Nisa até realizar o exame de admissão e de seguida ainda foi estudar para Castelo Branco, mas desistiu porque não encontrava compensação para o enorme sacrifício que tal representava.
Assim, com apenas 13 anos, foi aprender o ofício de Ferrador com o mestre Joaquim Curado Polido e com ele trabalhou até ir para a tropa. Quando regressou, montou a sua própria oficina no nº 11 da Estrada das Amoreiras (onde permanece até hoje), e após muito labor, tornou-se também ele, mestre desta arte.
Nessa época, para além da sua, havia mais três oficinas e muito trabalho. Os animais necessitavam de ter ferraduras para trabalharem no campo (inclusive as vacas, até serem substituídas por tractores) por isso, quanto mais trabalhasse mais ganhava. Não havia dias de descanso, à excepção dos quatro dias que lhe eram “sagrados”: Natal, Ano Novo, Domingo de Páscoa e o 15 de Agosto, em que abria a caça aos pombos e pelo menos nesse dia dava liberdade a essa sua paixão (nos restantes dias só ia à caça de fugida).
A ferragem vinha do Douro já acabada, mas tinha de ser trabalhada e ajeitada a seu gosto, aquecida na forja a ventoinha (com carvão de pedra) e batida no cavalete. Tal implicava muito esforço físico. “O material era outro. Cada ferradura de antigamente fazia duas das de hoje e o ferro era muito mais rijo. Era material melhor e mais barato do que o de agora”. Quando há quinze anos deixou o ofício, levava 28$00 por quatro ferraduras… o que não traduzia o trabalho que cada peça envolvia.
Deslocava-se a todo o concelho para trabalhar desde que lá houvesse o “tronco” que era a peça onde os animais eram imobilizados de forma a poder fazer o seu trabalho com alguma segurança (o que nem sempre acontecia pois “de vez em quando lá vinha um coice”). Para as gentes das terras onde não existisse o “tronco”, obrigava a deslocação a Nisa com os animais.
Dada a confiança que nele depositavam, era frequentemente chamado (sempre que o veterinário não podia), independentemente da hora do dia ou da noite, para acudir aos animais com cólicas (aí administrava-lhes um purgante) ou auxiliar animais a nascerem.
No início viajava de bicicleta e posteriormente de motorizada (primeiro emprestada e depois própria). “O pior era ir aos montes de bicicleta com a caixa das ferramentas a pesar”. Eram tempos difíceis. Mas não lamenta. Aliás, o porte do “Ti Chico” apresenta um grande homem com o sentido de missão cumprida e que não olha o passado com pesar. “Tinha de educar os meus filhos e queria que eles estudassem”. Tanto os dois filhos, como o rapaz de Arez, que teve como aprendiz, nunca lhe seguiram os passos talvez porque “é preciso nascer para tal vida”. As mãos do “Ti Chico” reflectem bem essa vida: ambas estão deformadas e assumiram há muito outra forma, por passarem muitos anos a segurar o ferro e a empunhar o
martelo.
No final, ainda quisemos saber o porquê da alcunha “Padreca” como é conhecido e que vinha já do seu bisavô. Ao que o “Ti Chico” conseguiu apurar, tal terá ficado a dever-se ao facto de o bisavô (José Dinis Cebola) ter comprado um terreno à entrada de Nisa conhecido pelo terreno da Padreca e daí terá advindo o nome, que ficou cimentado quando um dia seu pai (José da Graça Dinis) ao vender cereais, recebeu por pagamento um cheque endossado em nome de “José da Graça Padreca” o que o obrigou a abrir uma conta no banco com esse nome para poder descontar o cheque. Tal acontecimento teve ainda repercussões no registo do “Ti Chico” que tem no seu bilhete de identidade a referência a ser filho precisamente de “José da Graça Padreca”!
Ao longo da conversa, vários foram os termos utilizados pelo “Ti Chico” que evidenciam a sua arte. Não poderíamos, pois, deixar de aqui os reproduzir.
ATARRACAR - furar e ajeitar a ferradura ou canelo para poder ser colocado o cravo.
CANELO - designação dada à ferradura da vaca.
CAVALETE - espécie de bigorna usada para bater o ferro mas que se distingue daquela por não estar presa por espigão.
CRAVO – prego de ferro.
FORMÃO – instrumento afiado usado para cortar o casco.
LEGRA – instrumento usado para abrir eventuais abcessos de que padecessem os animais e que tinham de ser tratados antes de serem colocadas as novas ferraduras.
GROSA - grande lima usada no casco dos animais.
MARTELO – difere o que era usado para bater o ferro daquele que era usado para pregar os cravos.
SACA-ARREBITES – instrumento que permite retirar os rebites.
TALHADEIRA OU PONCETA – instrumento para cortar o ferro.
TORQUEZ – instrumento que podia ser usado tanto para cortar o casco como os cravos.
Gisela de Sá











