
Foi numa manhã dos primeiros dias de Outono que encontrámos Maria José e Maria “Arrebola” (alcunha por que é conhecida) a branquearem muros antigos de Alpalhão. São duas mulheres de garra, que optaram por trabalhar em equipa para que uma motive e encoraje a outra. A par de limpezas profundas, são das poucas mulheres que em Alpalhão ainda caiam, com excepção das mais idosas que procuram sempre manter as suas casas brancas, haverá uma meia dúzia de outras mulheres no mesmo ofício.
Esta arte secular cujo uso no Alentejo parece ser proveniente do período da ocupação muçulmana e depois solidificada pelos romanos, está praticamente extinta. O cimento, descoberto no início do séc. XIX, consequência da revolução industrial, veio substituir em parte o uso da cal.
A arte de caiar as paredes, nomeadamente das casas, exige alguma técnica mas é tremendamente eficaz, barata e utiliza(va) matéria-prima da região, a pedra calcária.
Para a caiação, utiliza-se o leite de cal que deve ser uma mistura fluida. Os melhores utensílios para caiar são os pincéis e as trinchas. Têm de ser macios e com grande densidade de pêlo dada a fluidez da cal. Para as paredes de maior altura, recorrem ao uso de canas em cuja extremidade é colocado um dos utensílios de caiar. Para o sucesso da tarefa, é importante que a parede absorva facilmente a cal, que ela penetre em todos os orifícios e se espalhe com facilidade. Para tal, é necessário passar o pincel várias vezes no mesmo local e terminar sempre as pinceladas no mesmo sentido, na vertical ou na horizontal.
A cal líquida ao ser aplicada, torna a parede translúcida ficando com aspecto molhado e transparente. É então necessário “saber ver” para perceber o que já está caiado e o que não está. Nesta fase, é possível ver à transparência a constituição das paredes, se há argamassas diferentes, remendos, outras cores, mas do branco…. nada! É então que começa a “fase mágica” do processo: à medida que a secagem avança, a parede transforma-se e fica branca! Isto pode durar muitas horas, dependendo da temperatura, da exposição ao sol e da existência de humidade ou salitre na parede. Depois de seca, quando a cal já ficou branca, pode dar-se outra demão para solidificar. Há até quem opte por juntar pigmentos (os tradicionais anil, óxido de ferro e amarelo), tornando a cal colorida para as barras de portas e janelas ou até mesmo para paredes inteiras.
Se as paredes têm os rebocos em boas condições não é preciso caiar todos os anos. No entanto, a cal adquire resistência pela sobreposição de camadas pois caiar é a forma de proteger os rebocos antigos, de lhes dar mais resistência e de limpar as paredes (dada a característica bactericida da cal). Outrora, em vez de se empregar o detergente, lavava-se as paredes e caiavam-se (não deixa de ser interessante observar a expressão inglesa para caiar - “white wash”, que traduzida à letra quer dizer “lavagem branca”).
Este saber, por hábito, é realizado pelo menos uma vez no ano a partir da Páscoa que é a festividade que marca o início do bom tempo, prolongando-se até ao Outono. Embora pareça fácil, caiar é uma tarefa morosa, cansativa e que exige técnica. Tarefa predominantemente atribuída à mulher, era-lhe ensinada normalmente pela mãe, desde cedo, de forma a ajudar nas tarefas da casa. Ao adquirir prática, podia já trabalhar também ao serviço de outrem. Hoje, como dizem estas mulheres, “há muito quem queira emprego, mas não querem trabalhar e muito menos nesta arte” e como tal, é cada vez mais difícil encontrar quem queira caiar, até porque “é um trabalho que suja”. Talvez por isso haja quem recorra cada vez mais às tintas, menos amigas do ambiente.
Nas últimas décadas, muitas pessoas passaram a utilizar tinta plástica directamente sobre rebocos antigos que durante anos tinham sido apenas caiados. O resultado à partida é perfeito mas com o tempo, as camadas de cal que cobrem as paredes acabam por fazer a tinta saltar. Além disso, por vezes, têm o problema dos fungos e bolores que se desenvolvem nas tintas plásticas e na cal não.
Quando se lhes pergunta porque começaram a “caiar a tinta” (expressão usada com frequência para indicar a pintura utilizando tinta) muitas vezes dizem, que é porque a tinta dura mais, não é preciso caiar todos os anos e as caiadeiras são já difíceis de encontrar face à facilidade de encontrar (homens) pintores.
As nossas gentes estavam habituadas a ver as casas sempre brancas, e a tradição de caiar é também um ritual de purificação, renovação e limpeza, muito entranhado; talvez também por isso, continuem a usar os pincéis da cal, mas agora para pintar com tinta. É que os materiais podem mudar facilmente mas as técnicas e os hábitos permanecem enraizados.
Gisela de Sá











