
João da Costa nasceu em Montalvão e ali viveu no nº 23 da Rua Direita até aos 14 anos.
O pai trouxe de França uma doença que o impedia de trabalhar e assim, a família partiu para Lisboa em busca de melhores condições de vida. Os recursos eram escassos naquela época e ele, que queria ser veterinário acabou por ter de trabalhar ainda menino.
Como torneiro mecânico não desistiu de lutar e continuou a estudar à noite. Primeiro o curso geral de mecânico e depois seguiu para o ISEL (Instituto Superior de Engenharia de Lisboa).
Foram tempos de grande contenção, qualquer dinheiro que juntava era para vir a Montal- vão “a sua terra”, local onde se sentia bem.
Entretanto, entrou para o arsenal do Alfeite como fresador, passando depois para a qualidade. Conseguiu terminar o curso de engenharia e ficou responsável pelo laboratório de ensaios mecânicos. Foi na crise naval e como forma de aliviar o stress que pegou num pauzinho de madeira e numa lâmina (folha de serrote) e começou a talhar, lembrando tempos passados.…
O pai e o avô foram figuras marcantes na sua vida e foi precisamente do avô António “Manchado”, que enquanto guardava o gado fazia carrinhos de bois em madeira, que lhe veio a inspiração.
Lembra-se de ser pequenito e de andar no quintal a apanhar pauzinhos para a avó fazer o lume e achar piada à forma que cada pedaço de madeira tinha e no que poderia ser transformada, mas à data não seguia o trabalho do avô.
Nesta fase da sua vida, em que o trabalho era pouco e a ansiedade abundava, esta forma de arte foi um escape. A pouco e pouco foi tentando talhar uma peça e depois outra e dada a sua destreza com as máquinas, logo foi arranjando forma de aperfeiçoar os acabamentos das peças, que por serem tão minuciosas tinham de ser tratadas com a delicadeza que as máquinas de grande porte não permitem.
Hoje, anos passados, na sua oficina podemos encontrar toda a espécie de materiais e ferramentas de trabalho. A madeira de laranjeira, oliveira, esteva, salgueiro, figueira e a cortiça, são hoje matéria-prima que conhece profundamente.
À medida que as peças simples passaram a fazer parte do seu quotidiano, depressa foi evoluindo para novos desafios. Incentivado pela família e amigos, lá foi talhando tarros, utensílios, bonecos diversos e carrinhos de bois numa homenagem ao seu pai e avô e como forma de lhes mostrar o muito que gostava deles.
Não podemos deixar de reproduzir as palavras do avô que dizia “ o meu filho andou toda a vida comigo e não é capaz de fazer uma tasga e o meu neto que saiu daqui tão cedo, faz coisas tão bonitas …”
Gisela de Sá











