
Foi no nº 11 da Rua Visconde Vale da Sobreira, em Nisa, que a Senhora D. Maria da Graça Dias nos recebeu num ambiente quente a contrastar com o dia frio que se sentia na rua.
Nascida em Friães, Montalegre, trabalhou com a família na lavoura até aos 18 anos, momento em que decidiu candidatar-se a Regente Escolar. Foi esta a forma que à época, encontrou para continuar a lutar por aquilo que acreditava, sem se opor abertamente ao modo como os seus pais (de famílias abastadas) geriam a lavoura e seus trabalhadores.
Numa sociedade fechada e distante dos grandes centros, a Igreja foi um dos pilares da sua formação, pelas leituras que fazia das publicações religiosas de que a sua família era assinante e que assim, lhe permitiam ter contacto com realidades distantes da sua, e que lhe deram a visão de amor ao próximo que detém hoje.
De Montalegre partiu para Chaves e de Regente ambicionou estudar para professora, mas o falecimento da mãe fê-la voltar a casa para assumir o seu lugar até que o seu irmão casasse.
Conheceu o Senhor José Dias e sem que alguma vez o tivesse planeado, acabou por casar graças à persistência do esposo. Como este trabalhava na barragem do Fratel, vieram para Nisa onde foi muito bem recebida. “Esta sempre foi a nossa rua“ diz-nos com um sorriso no rosto. “Os miúdos nunca quiseram sair daqui”.
Foi para o Magistério Primário recém-criado em Portalegre para acabar o seu curso, já com três filhos pequeninos e o marido doente que continuava a dar-lhe força para que lutasse por aquilo em que acreditava.
Foi professora em Alagoa, Arneiro, Nisa, Arez, Monte Claro, Castelo de Vide, Alcanena, Montargil e por fim Nisa.
Detemo-nos no seu percurso de vida porque entendemos que tudo está interligado. A Senhora D. Maria da Graça Dias é uma batalhadora, que nunca baixa os braços, mesmo perante as adversidades, e tenta transmitir esse optimismo a todos os que a rodeiam. Só assim se compreende que nos diga “Só tive experiências boas na vida”.
Foi num Natal em Arez que a Senhora D. Isabel Gouveia a ensinou na arte de confecção dos Rebuçados de Ovos, seguindo a receita do Convento de Santa Clara, em Portalegre. Ao que se sabe, as religiosas, faziam os rebuçados de ovos para aproveitarem as muitas gemas que sobravam dos ovos cujas claras eram usadas para engomar os hábitos e as toalhas de altar.
Se às primeiras tentativas não saíram perfeitos, uma vez mais, a sua persistência deu frutos e hoje, passados tantos anos, ensinou já dezenas de senhoras.
Bem feitos, se estiverem fechados conservam-se bem oito dias. Congelados duram muito mais.
Embora só confeccione para oferecer, acredita que este doce poderia ser a base de rendimento de uma família que se dedicasse à sua manufactura. Lamenta que passados tantos anos não haja nenhum negócio nesta área a florescer em Nisa. “Esta terra é tão rica em saberes e é uma pena que se percam” diz-nos agora com um olhar triste.
Anseia por transmitir a sua arte. Ensina quem assim o desejar pelo que tomou a iniciativa de nos facultar a sua receita. Segredos? Diz que o único segredo é afinal um dos seus lemas de vida: a paciência e o amor com que nos entregamos àquilo que fazemos.
Gisela de Sá
RECEITA DE REBUÇADOS DE OVOS

Ingredientes:
- 12 gemas
- 1 kg de açúcar
Preparação:
Colocam-se 250g de açúcar com 1,5 dl de água, bem medida, ao lume até fazer ponto de pérola sem fio.
Deixa-se arrefecer o açúcar e juntam-se as gemas depois de bem batidas e coadas pelo passador.
Põe-se o tacho em lume brando e vai-se mexendo até fazer estrada.
Deixa-se arrefecer e põe-se no frigorífico para incorporar mais.
Depois, tendem-se bolinhas envolvidas em açúcar que se colocam numa travessa.
Em seguida, põe-se um tacho pequeno ao lume com o açúcar restante e um bocadinho de água até fazer ponto de rebuçado.
Quando o açúcar já estiver no ponto, banha-se cada uma das bolas e tiram-se com uma colher pequena ao mesmo tempo que se colocam numa mesa de pedra, previamente untada com um pouco de óleo ou outra gordura.
Depois limpam-se e embrulham-se em triângulos de papel de seda.











