
“A noção de que podemos salvar o casamento aprendendo a comunicar de uma maneira mais sensível é capaz de ser o equívoco mais amplamente difundido sobre os casamentos felizes – mas não é o único.” (Gottman & Silver, 2001). Gottman chama-nos a atenção para o facto de, também à volta da comunicação, se estabelecerem alguns mitos.
As relações íntimas podem ser vistas como o melhor meio para satisfazer as necessidades de afecto, companhia, lealdade, intimidade emocional e sexual. É certo que todas as relações podem ter um lado negativo, contudo essas experiências relacionais negativas não desencorajam as pessoas acerca do valor das relações (Halford & Markman, 1997).
As relações conjugais são definidas por um sistema interaccional entre dois indivíduos distintos, cuja fusão origina um só sistema. Esta complexidade implica a capacidade de gestão das pressões (internas e externas) às quais o sistema está sujeito e uma grande flexibilidade, nomeadamente em termos de comunicação (Relvas, 1997). Os comportamentos dos cônjuges são mutuamente interdependentes, assim é difícil determinar se algum comportamento particular do cônjuge é a causa da resposta do parceiro ou é a reacção ao comportamento antecedente do parceiro (circularidade) (Fincham e Bradbury, 1990).
Assim, o conflito conjugal é entendido como o produto do sistema total e não o resultado de problemas de um ou outro cônjuge. Estes conflitos surgem devido a diferenças em crenças, interesses, desejos, valores, etc. Nem sempre são destrutivos. O conflito produtivo pode ser caracterizado pelo mútuo reconhecimento de interesses diferentes, comunicação aberta e honesta, e confiança. Nos conflitos destrutivos existe uma tendência para se usarem estratégias de poder, tácticas de ameaça, coerção e engano. Isto leva à suspeita mútua, à falta de comunicação e à desilusão (Paolino & McGrady, 1978). Por isso, entende-se a comunicação como uma dimensão facilitadora porque é um instrumento através do qual as relações se desenvolvem, os conflitos se resolvem, as decisões são tomadas e as diferenças entre necessidades e desejos são atenuadas.
“Comunicar” entende-se normalmente como o conjunto do comportamento verbal e não verbal num determinado contexto social. Comunicação pode querer dizer “transacção” ou “interacção”. Segundo Satir (1982): “sem comunicação, enquanto seres humanos, não seríamos capazes de sobreviver”. A comunicação é o nosso meio básico de descobrir, compreender e interagir com o mundo, as pessoas e a natureza das relações.
Toda a comunicação pode ser analisada de acordo com três categorias: a sintaxe diz respeito à forma através da qual a informação é transmitida. Por outro lado, a semântica diz respeito ao significado do acto comunicativo. É ao nível da semântica que se avalia a clareza da linguagem, a existência de sistemas comunicacionais privados e a concordância vs. confusão da comunicação. Por fim, a pragmática refere-se aos efeitos comportamentais da comunicação, podendo ser usada para definir as regras de comportamento que existem no casamento.
A categoria da pragmática inclui os axiomas da comunicação. Segundo Watzlawick (1981) estes são: a) impossibilidade de não comunicar; b) conteúdo e níveis de relação da comunicação, c) pontuação da sequência de eventos; d) comunicação digital e analógica; e) interacção simétrica e complementar.
A impossibilidade de não comunicar
Actividade ou inactividade, palavras ou silêncio, tudo possui um valor de mensagem e os receptores desta não podem não reagir e portanto, também estão a comunicar.
No entanto, a comunicação pode ser desqualificada. Isto acontece quando a pessoa se sente obrigada a comunicar, mas quer evitar o compromisso subjacente à comunicação. A desqualificação pode ocorrer através de: contradições, incoerências, mudanças de assunto, interpretações erróneas, etc. O resultado é falar sem nada dizer.
Conteúdo e níveis de relação da comunicação
A comunicação é importante no casamento porque as relações existem primariamente na comunicação entre parceiros (Donohue e Crouch, 1996). A comunicação define uma relação entre os interlocutores, uma vez que se estabelece o compromisso de comunicar. Assim, esta inclui dois níveis: conteúdo (transmissão de informação) e relação (expressão de características do interlocutor).
Os interlocutores podem discordar numa comunicação ao nível relacional (por exemplo; quem tem direito a fazer o quê) e não falam sobre isso para não terem de discutir.
Quando existe desacordo ao nível do conteúdo, um dos interlocutores está certo e o outro está errado. O que está certo, resolve o desacordo ao nível do conteúdo e o que está errado cria um problema de relação. Para que isto se resolva, os interlocutores têm de começar a falar sobre as suas relações, metacomunicando. Ao nível da relação, as pessoas fornecem definições dessa relação e deles próprios. Essa definição do “eu” pode ser: confirmada, rejeitada ou desconfirmada pelo outro. Quando é confirmada, assegura o desenvolvimento e estabilidade mental. A rejeição implica o reconhecimento daquilo que está a ser rejeitado, não se negando assim a definição de “eu” do outro. No caso da desconfirmação, ignora-se a definição do “eu” do outro, negando-se então a existência do outro interlocutor. Estas respostas indicam como um vê o outro, ou seja reflectem a ideia que têm do outro.
A pontuação da sequência de eventos
Na interacção comunicacional ocorre uma troca de mensagens que definem uma sequência de eventos pontuada pelos interlocutores. Esta pontuação serve de base para a organização dos acontecimentos comportamentais. Quando entre os comunicantes não há um acordo acerca da forma como pontuar a sequência de eventos surgem impasses interaccionais e conflitos.
Os conflitos surgem porque os comunicantes procuram uma causa e um efeito onde existe circularidade, ou seja, o comportamento de um deles força o outro a adoptar certas atitudes, e este percepciona-se como reagindo a esses comportamentos do outro e não como sendo ele a provocá-los (por exemplo: “Eu calo-me porque tu estás sempre a falar”; “Eu falo porque tu estás sempre calado”).
Comunicação digital e analógica
A comunicação serve-se das leis da sintaxe e da semântica e utiliza símbolos arbitrários. A comunicação analógica é toda a comunicação não verbal (postura, gestos, tom de voz, ritmo da comunicação, etc.).
Estabelecendo um paralelo com o conteúdo e nível de relação da comunicação, o conteúdo é transmitido digitalmente e o aspecto relacional é de carácter analógico.
Interacção simétrica e complementar
Numa interacção simétrica, os protagonistas reflectem o comportamento um do outro diminuindo assim as diferenças entre eles. A complementaridade implica uma maximização das diferenças entre os parceiros em que um está numa posição de poder superior (one–up) e o outro se coloca na posição oposta (one-down) (Relvas, 1997).
Nas relações saudáveis, simetria e complementaridade devem alternar de forma a que uma estabilize a outra. Quando isto não ocorre, em termos simétricos, pode verificar-se um perigo de competitividade que leva a uma escalada simétrica que corresponde a uma “escalada de frustração”, terminando com exaustão física ou emocional. Mantém-se então uma trégua instável.
Numa relação simétrica saudável os parceiros aceitam-se e respeitam-se, o que equivale à confirmação dos seus “Eus”. Quando a relação é disfuncional rejeita-se o “eu” do outro.
[Publicado na edição de 30 de Setembro de 2011 do Jornal de Nisa (n.º 29, II Série)]










