
Na interacção conjugal, a comunicação assume duas funções: a expressão dos sentimentos de amor e de intimidade física e psicológica e a resolução das dificuldades inerentes à partilha da vida quotidiana (Cohan & Bradbury, 1997; Fowers, 1998; Larson e col., 1998, cit. por Narciso, 2001). Desta forma, a comunicação vai assumir um papel muito importante na insatisfação conjugal. Isto confirma-se pelo facto de, tanto os casais como os terapeutas conjugais, identificarem os problemas de comunicação como sendo os mais frequentes e mais destrutivos nos casamentos de risco (Baucom & Epstein, 1990).
Verifica-se que as capacidades de comunicação dos recém-casados não se relacionam com a satisfação da relação no presente, mas predizem a satisfação futura (Halford & Markman, 1997; Halford, Sanders & Behrens, 2001). Num estudo longitudinal conduzido por Markman (1997, 1981, 1984 e por Baucom & Epstein, 1997) verificou-se que os problemas de comunicação são preditivos de perigo conjugal no futuro. Por outro lado, nos cônjuges casados há mais tempo a qualidade da comunicação correlaciona-se tanto com a satisfação actual como com a futura (Christensen & Walczynsky, 1997; Gordon e col, 1999, cit. por Narciso, 2001).
Segundo Gottman & Silver (2001), o divórcio pode ser previsto a partir dos três primeiros minutos de uma discussão entre o casal. Os casais que se divorciam, mais frequentemente iniciam as suas discussões com significativamente mais emoções negativas e menos sentimentos positivos. Esta diferença verifica-se para o marido e para a esposa.
O conflito pode ser funcional em termos longitudinais para o casamento, excepto quando indica defensividade, teimosia e retirada (particularmente se for da parte dos maridos). Gottman e Krokoff (1989) sugerem que as esposas confrontem os desacordos, mas que não sejam aceitantes, temerosas e tristes, devendo expressar raiva e desprezo. Por outro lado, os maridos devem envolver-se no conflito sem serem teimosos. Ambos os cônjuges devem evitar ser defensivos.
Os casais com problemas tendem a fornecer feedback negativo e, tal como a comunicação, o manejo do conflito é ineficaz. Aquando das discussões criticam-se e não ouvem activamente o outro, não sugerem soluções possíveis para os problemas, recusam discutir os problemas ou retiram-se das interacções. Estes casais atendem selectivamente ao comportamento negativo, atribuindo-o a traços de personalidade. Estas percepções encaixam nos sentimentos negativos que têm acerca das relações (Halford & Markman, 1997).
Weiss (1980, cit. por Baucom & Epstein, 1990) refere um processo denominado sentiment override que descreve a forma, através da qual a percepção de um cônjuge relativamente à qualidade positiva ou negativa das mensagens do parceiro depende dos sentimentos globais do primeiro relativamente ao parceiro e à relação.
De um modo geral, na base das distorções da comunicação está a “presunção de que o que é importante num momento o será sempre, que se duas pessoas se amam têm a obrigação de funcionar como se de uma só se tratasse e ainda, que a todo o custo cada qual tem de proteger a relação do conflito e o outro da decepção” (Relvas, 1997, p. 66 ).
As consequências disto para a comunicação do casal serão a rigidez e a ambiguidade, ao impedir a escuta do outro, e assim, a metacomunicação. Esta é particularmente importante, já que serve de meio para a transmissão de inconsistências das mensagens verbais e não verbais, permitindo a sua clarificação. Verifica-se que nos casais satisfeitos as sequências de metacomunicação são curtas e o casal volta rapidamente ao problema que está a ser discutido. Porém, nos casais insatisfeitos as sequências de metacomunicação são extensas e geradoras de negatividade, o que faz com que não funcionem, porque não permitem a continuidade da discussão. Esta falha no funcionamento da metacomunicação resulta da inconsistência das mensagens que está associada à sua pouca clareza (Baucom & Epstein, 1990).
Estas imprecisões na comunicação podem dividir-se entre: as envolvidas na codificação (a pessoa que enviou a mensagem não expressou a sua ideia claramente) e as envolvidas na descodificação (o ouvinte não reconhece as pistas da mensagem de forma precisa). São os casais em risco que apresentam mais imprecisões na comunicação, principalmente na codificação das mensagens. Relativamente à diferença entre os cônjuges verifica-se que: as esposas são melhores codificadoras que os maridos; os erros de descodificação das esposas têm a ver com o facto de elas verem as mensagens dos maridos como mais positivas; por outro lado, os erros de descodificação dos maridos devem-se mais à particularidade de estes verem as mensagens das esposas mais negativamente. Verifica-se ainda que as mensagens onde ocorrem mais erros de descodificação são as neutras (Noller, 1984, cit. por Baucom & Epstein, 1990).
Todas estas discrepâncias entre as mensagens levam a argumentos desnecessários e a hostilidades. A única forma de evitar a escalada de argumentos e ofensas é através de pedidos de clarificação. Para além disso, cada um dos cônjuges deve prestar atenção às suas reacções negativas e verificar se têm razão de ser (Paolino & McCrady, 1978). Portanto, a comunicação efectiva requer um ouvinte receptivo e atento, assim como um emissor que expresse clara e especificamente as mensagens para o ouvinte (Baucom & Epstein, 1990). Contudo, é de referir que a mensagem é sempre imperfeita, já que se generaliza sempre que se comunica. Isto acontece devido à necessidade de organização das experiências individuais (Satir, 1982).
Quando os casais estão em situação de conflito trocam muito poucos comportamentos positivos, experienciando um leque de emoções negativas que contribuem para se entrelaçarem comportamentos, cognições e emoções que constituem o fenómeno do stress conjugal (Fincham & Bradbury, 1990; Paolino & McCrady, 1978). Por exemplo, maridos e esposas em situação de stress têm grande probabilidade de reagirem negativamente se, enquanto escutam a mensagem do outro, esta elicitar um comportamento negativo, despoletando um afecto também negativo (Gottman, 1977, cit. por Fincham & Bradbury, 1990).
É de notar que existem diferenças de género na discussão de problemas: o comportamento das esposas parece ser mais negativo do que o dos maridos. Além disso, os maridos são mais capazes de interromper o ciclo de trocas negativas, oferecendo uma resposta positiva (Notarius e col, 1989, cit. por Fincham & Bradbury, 1990). Estes resultados remetem para a conclusão de que “as esposas actuam como o barómetro de uma relação stressante” (Fincham & Bradbury, 1990).
Estes autores e também Halford e Markman (1997) analisaram os comportamentos comunicativos que seriam preditores de um declínio da satisfação ao longo do tempo. Assim, maridos que experienciam esse declínio, quando se encontram numa situação de discussão de problemas manifestam um comportamento de retirada que é expresso na menor utilização do padrão de crítica e desacordo, numa tentativa de evitar um aumento do conflito. As esposas, na mesma situação reconhecem o conflito relacional e tentam manter os seus maridos envolvidos na interacção, atenuando a relação através de trocas positivas (avaliam as mensagens dos maridos mais positivamente e concordam mais com eles).
[Publicado na edição de 25 de Novembro de 2011 do Jornal de Nisa (n.º 31, II Série)]










