
Esta crónica não teve um nascimento fácil. Não que tivesse dúvidas no que queria dizer; ou no estilo da minha escrita. Não que duvidasse do valor holístico do produto cultural em causa, mas por não saber se seria “o tempo certo”.
Decidi-me quando um conhecido meu me disse: “Não envies isso para um jornal regional!” Porquê? Confesso que me choquei com o provincianismo mental, de quem julga os outros provincianos só por viverem fora da capital.
Não é a primeira vez que escrevo sobre cinema russo; devo aliás confessar a minha paixão por cinema vindo da terra dos czares. Mas filmes como o que Nikita Mikhalkov apresenta são incapazes de deixar qualquer um indiferente.
“12” é o nome simples de um filme que se quer complexo, mesmo tendo um ponto de partida simples: doze elementos de um jurado são chamados a pronunciarem-se sobre os crimes de um jovem checheno. A reunião do colectivo não deverá levar mais do que uma hora, afinal é óbvio que o jovem é culpado!
E no momento da votação obviamente que 11 mãos se levantam para condenar o jovem… E começa a tensão na sala! Um dos jurados vota “inocente” e sem unanimidade nada feito. A partir daquele momento o espectador entrará numa espiral de argumentos e de estórias que vão desnudando a verdade do crime e outras verdades.
E enquanto os personagens se vão despindo à nossa frente; as mãos vão mudando e a inocência do jovem vai ganhando força. Num filme quase despido de efeitos especiais são os efeitos sonoros e os silêncios que dão estrutura a uma trama intensa. E aos poucos o espectador tem vontade de saltar para dentro do ecrã e gritar “INOCENTE”! E aos poucos o que era óbvio revela-se obviamente como ignorância e preconceito.
O filme de Nikita Mikhalkov fala de preconceito (como quem fala de provincianismo mental!) centrado não nos personagens mas em nós; espectadores por momentos, mas personagens de tantos e tantos colectivos de jurados no dia-a-dia. Depois de “12” torna-se mais difícil tomar certas coisas como óbvias. E isso é obviamente bom!











