
Tornou-se já um muito feliz habitué (hábito em linguagem pseudo-chique) a qualidade da Semana da Moda de Lisboa. Não são raros os desfiles que nos surpreendem. Lisboa ainda não rivaliza, em status, com Paris, Milão, Tóquio, Nova Iorque e São Paulo, mas não lhes fica a dever nada em criatividade.
A criatividade do universo fashion, da moda, está muito associada ao feminino; ao pretenso gosto das mulheres gostarem de se sentir bonitas. Mas a 36ª edição da Moda Lisboa acrescentou a tudo isto uma forte dose de masculinidade. E o Homem, de súbito (e diria que em boa hora!), tomou as rédeas da passerelle lisboeta.
Da 36ª edição da Moda Lisboa muito haveria para escrever, mas centrar-me-ei no final! No final da Moda Lisboa, no seu último dia, o Homem foi a estrela mais cintilante com a maioria dos criadores a olhar para o mercado masculino, em franca expansão. Nuno Gama não foi excepção, apresentando nos palcos da capital uma sequela de um conceito que tem vindo a cunhar: “Testocracia”.
O curioso jogo de palavras, que funde a animalidade da Testosterona e a elegância da Aristocracia, diz um pouco da colecção apresentada. O autor juntou a elementos da indumentária tradicional, certas peças e acessórios com algum requinte, deixando a imagem a marinar nos corpos esculpidos nos ginásios, pelos Testocratas.
A colecção de Nuno Gama ganha pela junção de tecidos como algodão, lã, veludo e cetim e pela paleta de cores elegantes (com azuis, vermelhos secos e castanhos em destaque). Ao contrário de outras colecções, nesta optou-se por uma maior usabilidade e por algum requinte, deixando-se de lado peças mais estruturadas e com maior trabalho de arquitectura.
Com a sua “Testocracia” Nuno Gama, mais do que uma colecção, lança um manifesto! Nuno Gama apela ao homem assumidamente sexual, sem peias na exibição da sua masculinidade. O testocrata move-se nos ginásios, onde molda o seu corpo, expoente máximo da sua realização pessoal. E como quem molda o corpo gosta de se mostrar com estilo, Nuno Gama dá a sua ajuda.
Apesar da criatividade na construção do conceito, e da boa selecção dos modelos que desfilaram, fiquei com a impressão que a Testocracia tem muito de Testosterona mas pouco de Aristocracia. Faltou ao desfile um toque de requinte, de distinção, de elitismo; faltaram as características basilares dos Aristocratas. Quiçá, na próxima o “embrulho” condiga melhor com a colecção…
[Publicado na edição de 28 de Outubro de 2011 do Jornal de Nisa (n.º 30, II Série)]











