
Andava perdido a navegar pelo Youtube, numa das raras tardes ociosas que preencheram o meu mês de Novembro, quando tropecei na “Que Parva que Sou” música dos lusitanos Deolinda, que serviu de banda sonora e de leitmotiv para os protestos da “Geração à Rasca”.
Logo me pus a pensar no extraordinário poder revolucionário das músicas. E, no instante seguinte, o meu cérebro argumentou de si para si: “as músicas não fazem revoluções! Servem de banda sonora, mas não escrevem o guião político”. Mal sabia essa porção da minha mente quão enganada estava.
Permitam-me que me explique! O poder da música é, ipso facto, relegado a uma secundariedade aquando da fenomenologia política, mas isso não quer dizer que a música não encete revoluções. O documentário “The Singing Revolution” (“A Revolução Cantante” ou a “A Revolução Cantada”) prova, com uma clareza iluminadora, como a música pode ser um poderoso instrumento de poder, ao dispor da sociedade civil.
“The Singing Revolution” não é uma versão romanceada por Hollywood de uma qualquer revolução imaginária, na qual a música é estrela principal. O projecto de James Trusty e Maureen Trusty é antes um documentário vigoroso, sobre a revolução independentista da Estónia nos momentos que antecedem o colapso final da União Soviética.
Por ser um documentário a estória do mesmo funde-se com a História da Estónia. Feito de modo despretensioso, “The Singing Revolution” vai reconstruindo os passinhos da libertação de uma Nação, sobre o jugo de um complexo político vazio em termos identitários e anímico em termos políticos. O espectador percebe, em poucos segundos, que a música é tão importante como o ar para os estónios.
E com um sorriso infantil, fraternal, vamos (re)vendo a História, conduzida pelas palavras cantadas dos seus protagonistas. Ao invés de um estilo seco, sério, documentalista, a dupla James e Maureen optaram por uma visão simples, quase bucólica, mas muito intensa. O documentário transparece uma enorme paixão pela Estónia e uma vontade de contar a estória, antes que a História se esqueça.
Dois reparos, todavia, devem ser feitos! Como a maioria dos projectos de cariz identitário, o projecto “The Singing Revolution” tem momentos que roçam o nacionalismo exacerbado e, sub-repticiamente, pode induzir à russofobia. O outro reparo, é a lamentável ausência de legendas em português, naquele que é um projecto cinematográfico de grande valor. Mesmo assim, fica o desafio…
[Publicado na edição de 25 de Novembro de 2011 do Jornal de Nisa (n.º 31, II Série)]











