
Recentemente, ouvi num noticiário um renomado político, ao qual não vou fazer publicidade, dizer que “o tempo não está para fantasias”. A crónica deste mês, meu caro, parece ter sido feita para o contrariar. Não foi! Mas podia ter sido!
A fantasia é, entre outras coisas, uma porta de entrada para um universo menos alternativo do que parece. Os personagens dos contos de fadas, na verdade, representam anseios, desejos, medos e uma plêiade de sentimentos muito humanos. Confundir fantasia com onírico (com o reino dos sonhos) é um erro comum, mas que se deve evitar.
Se queremos apontar o dedo a alguém por ter fundido fantasia e onírico podemos fazê-lo ao audiovisual norte-americano (televisão e cinema); mas se queremos ver bons exemplos de como a fantasia é um género rico em expressões criativas teremos que fazer vénia à mesma indústria. É paradigmático que dos Estados Unidos venha o melhor e o pior que se faz nesta área; é imperativo referir que no domínio da fantasia por via do Mito o Japão é quem dá cartas.
E toda esta introdução para quê (pensará o leitor)? Para lhe escrever sobre a série “Era Uma Vez”, que o AXN começou a exibir recentemente. Começo por me confessar como um consumidor compulsivo de literatura/cinema/televisão do fantástico e, por isso mesmo, temi que esta série caísse em mais um emaranhado de clichés e de redundâncias nada criativas.
O duplo episódio de estreia provou quão errado eu estava. E entretanto já vi mais uns quantos episódios (adiantados) para fortalecer a minha opinião. A série “Era Uma Vez” é um extraordinário exercício de criatividade literária que em vez de se ler nas páginas de um livro é lido no televisor. Com “Era Uma Vez” prepare-se para voltar a ser a criança que já foi…
A trama inicial é simples, despretensiosa e por isso poderosa. A Bruxa Má (da Branca de Neve) lança um feitiço aos personagens dos contos de fadas que ficam presos na cidade de Maine (EUA), sem se lembrarem de quem são (nem a Bruxa sabe quem é!) e dependentes da ajuda de Emma, que terá de confiar no jovem Henry, filho de Emma adoptado à nascença por Regina (a Bruxa Má).
E mais não digo, que não quero tirar ao leitor o prazer de descobrir a trama, como quem descobre as camadas num bolo de chocolate, feito pela avozinha. Uma série que promete deliciar miúdos e graúdos e, quiçá, chegará um dia aos canais generalistas. Com “Era Uma Vez” fica lançada a questão: ainda é capaz de confiar no seu coração?
[Publicado na edição de 27 de janeiro de 2012 do Jornal de Nisa (n.º 33, II Série)]











