Jornal de Nisa

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Alguns públicos de teatro

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Quando se trata de teatro, muito se fala mas pouco se diz.

Os actores dizem que o público não compreende, o público diz mal de espectáculos que não  merecem críticas muito severas e com frequência diz bem de espectáculos lastimáveis.

Onde está a razão?

Talvez em todos e em ninguém.

Nós pensamos que há pelo menos dois tipos de público em teatro: o que compreende e o que sente.

Há pessoas que vão ao teatro e compreendem as subtilezas da peça, da encenação, da interpretação dos actores, comparam o que estão a ver com outros espectáculos, com outras peças, com obras que leram, tiram conclusões, avançam opiniões, são em geral pessoas “cultas” que falam com convicção e dão ao que dizem um tom douto que não aceita ser contrariado, e se acontece depararem com alguém com opinião contrária, há uma batalha verbal cuja conclusão não interessa imaginar, pois que será tão estéril como a discussão em que os contendores se envolveram. Um tem razão porque a sua cultura, o seu saber, a sua experiência e tudo aquilo que viu e leu, lhe permite saber o que está a dizer, o outro exactamente pelas mesmas razões, mas porque viveu de outra maneira as experiências por que passou, opõe a sua opinião. Por vezes, esses duelos acabam em grandes abraços com a afirmação mútua de que se estimam apesar da divergência de ideias.

Mas há aquele público que vai ao teatro porque ama o teatro sem saber porquê, porque o teatro o diverte, o emociona, porque o faz pensar na vida, nas suas paixões, ou por várias outras razões, mas sente profundamente os detalhes mais subtis de uma obra que acaba aplaudindo com entusiasmo desmedido.

Os actores aceitam com prazer a  companhia dos que compreendem mas intimamente  preferem a sociedade com os que sentem, porque esses falam do que receberam do espectáculo, com admiração, com lealdade, para eles admirar o actor  é uma maneira de agradecer aquilo que o actor lhes deu.

A peça de Anton Tchekov, O Tio Vânia, deve ser a obra que mais vezes vi em palco. Durante meio século foram muitas as vezes que me sentei numa plateia para me entregar ao prazer de ver as magníficas personagens criadas pelo autor russo. Além dos espectáculos que vi, foi obra que  estudei como actor, que trabalhei com alunos. Isto para dizer que era uma obra que conhecia, ou julgava conhecer, até ao mais pequeno detalhe. Mas... não há muito tempo no teatro de Huelva tive oportunidade de ver mais uma vez a obra interpretada por uma companhia de Madrid em itinerância pela região de Andaluzia.

As interpretações dos actores, a proposta inovadora do cenário, as luzes, mesmo o fundo musical, ou o ritmo imposto pelos actores, ou por tudo isso ou ainda pelo momento difícil que atravessava na minha vida, o certo é que desde as primeiras palavras dos actores, esqueci por completo tudo o que conhecia daquela magnífica obra. As duas horas de espectáculo passaram sem eu dar pelo tempo, a peça entrava em mim, levava-me, arrastava-me sem eu dar por isso, aqueles personagens envolviam-me, eu sentia-me no meio deles, ouvia os seus dramas, vibrava com os seus amores, sentia-me triste com os seus sonhos perdidos, sentia-os humanos mas não vencidos pela vida, batidos mas com  esperança.

Quando o pano fechou o silêncio na sala era completo. Um silêncio que durou uma eternidade ou uns segundos. Bruscamente uma explosão de aplausos estoirou, o público levantou-se e aplaudiu até ter dores nas mãos, de vários locais da sala vinham gritos de BRAVO, pessoas subiram ao palco para abraçar os actores, olhei para a minha mulher como que a perguntar-lhe  o que se passava e ouvi que me dizia:

- Eles apanharam-te.

- Porquê, perguntei?

- Tens a cara cheia de lágrimas.

Naquela noite eu estava com os que sentiam, e tinha vivido a mais bela noite de teatro da minha vida.

[Publicado na edição de 30 de Dezembro de 2011 do Jornal de Nisa (n.º 32, II Série)]

 

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