
O teatro é uma arte e aqueles que a exercem, os actores entre outros, são artistas. Mas enquanto um pintor dá a sua arte ao público pela pintura, o compositor pelas notas que escreve na pauta, o musico pelos sons que tira do seu violino ou do seu piano, o poeta pela beleza dos seus versos, o escultor pelas suas estátuas, o actor dá a sua arte ao público através do seu corpo.
Fazer do seu corpo, da sua voz, da sua sensibilidade, da sua memória, um instrumento que responda às necessidades da sua arte é trabalho longo, extenuante e exigente.
Cada actor responde a essa exigência, criando um método próprio para agradar ao público.
Dos exemplos que procuraremos mostrar nestas crónicas, podemos começar pelos que se preocupam com o aspecto exterior da personagem que devem interpretar. Desde o primeiro ensaio querem saber como estarão vestidos. Nesse capítulo as actrizes são as mais exigentes, algumas vão ao ponto de querer ser consultadas sobre a qualidade dos tecidos. Esse tipo de atitudes se chegam ao conhecimento público, ocasionam histórias fantasistas como aquela que se contava de uma actriz que poucos dias antes de uma estreia ter exigido para entrar em cena e cantar uma canção que durava apenas quatro minutos, uma capa que cobria todo o palco do teatro. E aquela de uma grande dama do teatro que recusava entrar em palco, ou num plateau de cinema, com jóias que não fossem verdadeiras, o que exigia um aluguer caríssimo, um seguro elevado e alguns homens para defender as jóias alugadas.
Em muitas dezenas de anos de vida dentro de teatros e com gente de cinema não encontrei exageros de tal ordem, mas os actores, sendo pessoas públicas, provocam a imaginação mais fantasiosa. O que não exclui que uma ou outra das grandes personalidades do palco tenha sonhado tais extravagâncias. Mas se considerarmos que entrar num palco para representar seja um pequeno ou um grande papel, ou enfrentar uma câmara de cinema ou de televisão, o actor dificilmente controla os nervos, facilmente compreendemos que nem sempre ele tem consciência das exigências que faz ou desejaria fazer. Jean-Baptiste Poquelin, mais conhecido por Molière um dos maiores homens de teatro da humanidade já dizia que os actores são gente muito estranha. E ele sabia de que falava, era actor, casado com uma actriz, director de companhia e autor das mais belas comédias que ainda hoje, trezentos e sessenta anos depois da sua morte, divertem plateias no mundo inteiro.
Este tipo de actores e actrizes, a que podemos chamar ACTORES TÉCNICOS, porque os há, prepara o seu trabalho com muito cuidado, perde muito tempo todos os dias na frente do espelho estudando as suas poses, controlando as expressões do seu rosto, cada gesto da mão ou de um braço é medido com cuidado. Quando entra em cena tudo está calculado, controlado, medido até ao pormenor. Esse género de artistas tem uma dicção cuidada e declama o seu papel com clareza e eloquência. Repete todos os dias metodicamente cada gesto, cada som, cada inflexão: É perfeito, mas desumano, não há personagem no seu trabalho, há apenas actor. O público sai do espectáculo apreciando o actor mas privado do personagem e da humanidade que o autor quis mostrar na sua obra.
O grande mestre russo, Constantin Stanislavski (1865-1938), fundador do teatro Artístico de Moscovo, escreveu:
“Sobre um palco não deve haver nada de mais deslocado que o olhar vazio de um actor, por nos revelar o adormecimento de uma alma cuja atenção está ausente, fora do teatro e da vida que se procura apresentar no espaço cénico que é o palco. Uma linguagem activa, as pernas e os braços movendo-se automaticamente, não substituem um olhar consciente que é o único meio para mostrar a vida que o actor deve apresentar ao público. Não é por acaso que se diz que os olhos são ‘o espelho da alma’. Um actor que olha e que vê, prende a atenção do espectador conseguindo assim dirigi-la para o ponto desejado. Mas o olhar vazio do actor distrai, afasta o espectador do que se passa sobre o palco”.
Dificilmente se pode chamar artista ao ACTOR TÉCNICO.










