
Eu sou um nisense porque Deus quis que eu fosse!... Resumindo a minha "biografia", vou contá-la como se fosse um conto de fadas, cujo príncipe combate as forças do mal para salvar a princesa...
Eu vivi a minha infância, perturbada e sem grandes meninices, no Largo do Mártir Santo, em Nisa, em conjunto com os outros meninos: ali brincávamos, até que as nossas mães chegassem das mais diversas azáfamas do campo: mondas, milharadas, apanha da azeitona ou lavagem de roupa nas ribeiras, pois naquele tempo não havia Jardim de Infância...
Tempos remotos, que eram divididos entre a escola e as brincadeiras, nos mais diversos bairros da nossa querida terra, em que por vezes não faltavam as tão tradicionais "calhoadas" (pedradas), expedidas pelas nossas armas de guerra: as fisgas, pois todos possuíamos este armamento, que resultava em algumas cabeças partidas.
Entretanto, a televisão apareceu em Portugal, mas só poderia ser vista no salão do Benfica ou na Sociedade Nisense na condição dos nossos pais serem sócios duma ou outra colectividade, se não, nem sequer tinhamos direito a ver os nossos heróis preferidos. Os filmes da época eram: o Bonanza, Ritintim, Lassie, Fúria, Robin dos Bosques, os Quatro Homens Justos, os Piratas e o Dangerman, entre outros...
A minha adolescência foi vivida sem problemas, na aprendizagem do oficio até aos 14 anos, data em que emigrei para Lisboa, tendo ainda na memória aquele comboio a fumegar na Estação de Vale do Peso, pois foi a primeira vez que eu tinha visto aquele meio de transporte, porque antes só tinha andado a cavalo, em carroças e carretas. Na capital, ai o caso era outro, os prédios altos e tantos carros a circularem nas avenidas era o que mais me impressionava… Quando tinha que apanhar um autocarro, subia sempre para o segundo piso, talvez para ver melhor a paisagem; passando uma juventude feliz, com namoricos à mistura, passeando pelos quatro cantos da cidade, que eu conhecia naquele tempo como as palmas das minhas mãos.
Entretanto, casei-me ainda novo, imaginando que seria um marido ideal; depois as atrocidades monstruosas da guerra colonial tornaram-me arrojado, destemido e sem medo. Ganhei amigos de verdade, que a erosão do tempo me fez perder, e quando regressei, felizmente sem marcas corporais ou morais, não hesitei sequer um minuto, emigrei de novo, mas desta vez para a França, local que os nisenses escolheram para se instalarem e trabalharem. Feitas as contas, não estou arrependido, muito embora recorde as dificuldades linguísticas que todos passámos ao princípio, passámos por altos e baixos e como toda a gente sabe o "dinheiro não se cava", razão pela qual uns conseguiram melhor que os outros; mas em geral, quase todos progrediram à custa de sangue, suor e lágrimas...
Neste tempo todo, tanto em Portugal como no estrangeiro, formaram-se "Associações" e fizeram-se "Geminações", tudo isto para tornar uma Europa unida e fraterna, cujos laços de amizade ainda hoje são lembrados e festejados, graças às pessoas que se empenharam nesta obra valorosa. É triste, mas é de lamentar a falta de convívio actualmente entre os emigrantes da nossa terra, até os vizinhos, passam-se semanas e meses que não nos vemos uns aos outros, pois tudo mudou. Não sei se a crise económica também embaralhou a mentalidade das pessoas ou se é efeitos da velhice ou das pequenas reformas que possuímos!...
Ainda bem que existem os direitos sociais porque, nalguns lares, a saúde deteriora-se dia a dia, transformando a felicidade em sofrimento, sem que os familiares ou amigos os possam confortar. Eu gostava de um dia ser rico só para poder ajudar aqueles que mais precisam, quanto mais não fosse para compartilhar com eles as suas dores e o sofrimento, porque “quem dá aos pobres empresta a Deus"...
Eu sempre gostei de ver as coisas em face, por isso, acho que é duro de engolir a pílula, quando não há direito de cidadania, isto quer dizer o quê? Quer dizer que eu não sou escutado nos momentos de verdade. O futuro é proibido adivinhar, por isso eu estou nas mãos de Deus para me libertar dos pecados e dos sofrimentos que ocasionei, pedindo perdão àqueles a quem eu traí a amizade...
As caras enrugadas pelo tempo são comoventes e recontam toda uma vida, que é o fruto de toda esta história, que foi a dos nossos pais e que antes foi também dos nossos avós. Ignorar esta história é como se fosse o não se deixar guiar pela estrela que levou os pastores ao encontro do Messias...
Até à próxima, deixando-vos com esta citação:
“O destino é o que nos chega a toda a hora e que nós não esperamos”. (Tahar Ben Jelloum, escritor marroquino).











