
No momento em que o meu filho se sentou comigo à porta de casa em final de tarde, estranhei, mas não lho disse. Agi como se fosse normal, à semelhança dele. Afinal, “queria colo”. Colo que talvez eu nunca lhe tenha dado. E precisava que eu escutasse o seu desabafo …
“Quando o meu neto lhe perguntou o que era aquele círculo de pedra junto à vinha, a sua vida ficou em suspenso. De repente, como se de um passo mágico se tratasse, recuou à sua infância. Uma infância feliz passada em grande parte no campo. Naqueles tempos, ceifavam-se os cereais que se levavam em percursos sinuosos até à eira de pedra. Ele, como os homens e mulheres, descalçava-se e, ao som dos reparos da mãe sempre preocupada que algum bicho mordesse ou uma farpa se entranhasse na sua sensível pele, lá seguia, imitando os adultos e ajudando no que podia. Como eles, dispunha os cereais naquela eira até que, uma vez secos pudessem ser escolhidos, limpos, debulhados e por fim acondicionados, para guardar ou para comercializar.
As melhores lembranças estavam na desfolhada do milho, nas noites quentes de verão, à luz do luar, acompanhada pela luminosidade ténue pulverizada por alguns candeeiros “petromax” espalhados pelo chão. À época, não compreendia bem o alcance da alegria manifestada por homens e mulheres de cada vez que aparecia uma espiga de milho vermelho por entre as amarelas. Nesse momento, grande barulho se fazia e o achador teria de gritar “milho-rei”, ganhando o direito de dar um abraço ou um beijo ao elemento do sexo oposto por si escolhido…
Aquelas noites, representavam uma forma de união como ele não sentia em nenhuma outra circunstância. Sentado em cima de enormes montes de folhas que se iam formando à medida que “descamisavam” o milho, e sempre rodeado dos cães fiéis amigos, ao som das cantigas ao desafio que os homens e mulheres se atreviam a entoar, olhava o céu, contava as estrelas e a vida parecia-lhe perfeita.
Hoje, doía-lhe olhar as pedras caídas do que outrora fora uma imponente eira. As ervas crescidas, evidenciavam que há muito ali não havia qualquer actividade. Agora tinha a certeza que o tempo havia passado… e que como aquele campo, também ele tinha envelhecido. As fendas da terra seca debaixo dos seus pés, agora calçados, lembravam-lhe os sulcos da sua pele. Como aquele terreno, também ele se sentia agastado, cansado de tantas lutas, e agora… resignado ao que o destino lhe proporcionara. Não, não poderia falar ao seu filho da justeza da vida. “
E por o compreender, a ponto de o sentir, também eu nada poderia dizer. Assim, ali ficámos os dois, imóveis, a escutar o silêncio…











