Jornal de Nisa

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As filhós, as azevias, as argolas, rabanadas, sonhos e outros tais

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É época de festa! Se uns festejam a religiosidade do nascimento de Cristo, outros há que celebram a festa da família e cada vez mais quem celebre a data como uma época onde se come, bebe e se trocam presentes. Há ainda quem, por razões religiosas ou outras, passa ao lado deste evento. É Natal e é feriado (mesmo num país laico como o nosso)!

São dias de mesa farta, consumismo e esbanjamento. Todos criticamos mas, de grosso modo, todos fazemos questão em confecionar ou comprar aquele pequeno mimo com a desculpa “de que é natal”. São as prendas para as crianças pois diz-se que o Natal é delas, mas são também as atenções e os agrados para este ou aquele familiar, amigo ou para nós próprios. A verdade é que temos sempre desculpa para querermos comprar isto ou aquilo, assim haja carteira que o suporte. O espírito de Natal há muito que se perdeu e nem mesmo o cristão mais fervoroso, celebra esta quadra na total aceção do termo. Se elegemos a fraternidade e a humildade como marco do Natal, pecamos na ostentação e no egoísmo com que compomos a nossa mesa sem pensar no vizinho do lado. É uma data, que tal como muitas outras tem vindo a perder o seu real significado em detrimento de um mundo de opulência onde muitas vezes quem menos tem, é quem mais gasta em presentes e “acepipes”.

Mas ficaram os doces e pratos específicos à quadra! Poucos são aqueles que dispensam uma filhó, uma azevia ou uma argola à mesa mesmo quando durante o resto do ano não nos lembramos destas iguarias culinárias. Mas qual a sua origem? E o porquê de as cozinharmos quase só nesta época? O termo “filhó” deriva do latim que significa folha o que nos remete para a leveza da massa e para a sua forma empolada e disforme ao sair do lume. Da azevia pouco se sabe e menos ainda existe sobre a “espesse” (para mim, é o recheio de grão) que a recheia. “Azevia” é um peixe de água salgada que se assemelha à solha e o puré de grão poderá ser mais uma adaptação da culinária dos elementos típicos da cozinha alentejana. A “argola/aro/elo” associamos ao universo onde o fim e o princípio se unem não sabendo onde os mesmos começam ou acabam e, como tal, para além do simbolismo, poucas mais semelhanças terão.

São bolos que associamos ao Natal onde antigamente o serão à lareira proporcionava a confeção e promovia a harmonia familiar. Hoje, são já poucas as famílias que na noite da consoada estão em volta da lareira (até porque os recuperadores de calor, ares condicionados e outros sistemas de aquecimento são até mais eficazes) e menos ainda as que se dedicam à sua elaboração e posterior fritura num tacho de azeite quente ao lume. Eram os salpicos de azeite na pedra da lareira por muito cuidado que tivéssemos, a ponta dos dedos escaldados de apressadamente as querermos polvilhar no açúcar e o cheiro a “fritos” que nos acompanhava até à missa do galo! E depois voltávamos a casa para desembrulhar os presentes e passar o resto da consoada… e essa será outra história a contar.

(escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico)
[Publicado na edição de 30 de Dezembro de 2011 do Jornal de Nisa (n.º 32, II Série)]

 

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