Jornal de Nisa

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“Annus Horribilis”

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Corria o ano de 1992 quando a Rainha Isabel II popularizou a expressão “Annus Horribilis”, literalmente “ano horrível”, na sequência de uma série de incidentes ocorridos nesse ano com a família real britânica. Com esta edição a chegar-vos às mãos em vésperas de Ano Novo, tempo de reflexão e balanço, também só me ocorre essa expressão, com alguma falta de originalidade, para etiquetar o ano que se finda.

Muito daquilo que nos últimos 30 anos fomos tomando por garantido parece escoar-se como fina areia de praia por entre os dedos: a estabilidade das instituições, o direito a cuidados de saúde e educação, no dizer do articulado constitucional, tendencialmente gratuitos, o direito à reforma e à protecção na velhice, o direito ao pleno emprego e a remuneração justa.

A União Europeia, que muitos viam como inesgotável árvore das patacas, treme a cada espirro da Sra. Merkel e a cada inevitável “santinho” do Sr. Sarkozy, reacendendo velhos temores e exacerbando nacionalismos dormentes. Onde é que isto vai parar? Como dizia o outro, com o inesperado a tornar-se a norma, prognósticos, só no fim do jogo.

Por Nisa a crise sente-se e acentua-se, insidiosa como o nevoeiro nas frias manhãs de inverno, corroendo lenta mas inexoravelmente o espírito das nossas gentes. Não tenho memória de época natalícia tão mortiça e cinzenta, nem de ver tanta gente com medo do futuro e o credo na boca. A falta de decorações natalícias, tanto públicas, que o corte da despesa a isso obriga, como privadas, que alegravam, às vezes com bastante mau gosto, é verdade, varandas e janelas, é a expressão mais palpável do desencanto que grassa pela Corte das Areias. Não será certamente o custo de meia dúzia de fitas garridas ou de uma gambiarra de luzes coloridas que inibe as pessoas, Se fosse só isso, não viria daí grande mal ao mundo.

Aquilo que de forma contundente nos agride e transforma em seres de semblante cabisbaixo, não são a falta de recursos financeiros, a fuga de investimentos ou a desconfiança dos mercados internacionais. O que nos assusta é não sabermos qual vai ser o futuro dos nossos filhos, o que nos desilude é terem-nos roubado os nossos sonhos, o que nos magoa é quererem privar-nos da única coisa que nos pode, apesar de tudo, permitir continuar: a Esperança. Porque um Povo sem esperança é um Povo derrotado e moribundo. E eu continuo a ter esperança na existência de vida para além da crise e da cretinice de alguns políticos. Se tenho algum voto de Ano Novo, é apenas este: continuo a ter esperança no desenvolvimento do meu País, continuo a acreditar que o meu, que o nosso Concelho, vai sair da modorra em que por ora vegeta, continuo a acreditar que o futuro do meu filho vai ser melhor que o meu presente.

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[Publicado na edição de 30 de Dezembro de 2011 do Jornal de Nisa (n.º 32, II Série)]

 

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