
Parece que um destes dias o Sr. Primeiro-ministro e o Sr. Ministro dos Negócios Estrangeiros, cheios de preocupação pela tranquilidade do País, avisaram que não iriam tolerar perturbações da ordem pública. À primeira vista, todas as pessoas dotadas de massa cinzenta e de algum bom senso, concordariam com as afirmações de tão zelosos governantes. Acontece que, ao contrário do que todos nós comuns mortais entendemos por “perturbações da ordem pública”, os dois iluminados chefes da coligação governamental referiam-se a manifestações, greves e essas coisas que quem está no poder tem que aturar da arraia-miúda. Percebemos demasiado bem o que lhes passa pela cabeça: sabendo das medidas que tomaram e que se preparavam para agravar tiveram medo que, após o período letárgico das férias de verão, os portugueses caíssem em si, percebessem que existia uma outra via, e desatassem a contestar as medidas do governo. Confiando nos (em tempos de má memória) tão celebrados “brandos costumes” dos portugueses pensaram, assim, desmotivar todos aqueles que entendem que o cominho trilhado pelo governo nos conduzirá, inevitavelmente, à derrocada. Desenganem-se. Dos “paizinhos da pátria” livrámo-nos em Abril de 74 e, felizmente, cada vez menos portugueses têm estofo para aguentar todos os desmandos que os sucessivos governos vêem praticando. Dizem-nos, agora, que o governo tem que se imiscuir cada vez menos na economia e que o melhor é privatizar tudo. Dizem-nos que não podemos continuar a viver como vivíamos, que não podemos sonhar com uma sociedade mais justa onde todos têm o direito a viver com dignidade, que o trabalho, a educação e a saúde não são um direito. Dizem-nos que a solidariedade, o respeito pelo outro, o bem colectivo e todos os valores em que acreditávamos já não se usam. Dizem-nos que tudo isto destruiu a economia e que não há alternativas às políticas com que nos massacram. Dizem e querem que acreditemos. Ou, se não acreditarmos que não nos manifestemos. Bem sabemos que não gostam que lhes batam o pé e que os contestem. Bem sabemos que nos querem domesticados, ordeiros e convencidos que participar na vida pública é, apenas, votar de quando em vez. Bem sabemos que nos querem apáticos. Não lhes faremos a vontade. Deixar cair os braços e desistir é dar rédea solta ao governo para sobrecarregar mais e mais o país e os portugueses. Como diz o nosso povo, “quem cala, consente” e enquanto não nos tirarem o direito à indignação, estaremos sempre na primeira linha da denúncia das injustiças e da resistência às medidas que nos pretendem impor.
No próximo dia 1 de Outubro a CGTP promove, em Lisboa, uma manifestação “contra o Empobrecimento e as Injustiças”. Participar numa manifestação é fazer ouvir a nossa voz, é mostrar que não estamos de acordo, é, afinal, uma outra forma de participação. No próximo dia 1, em Lisboa, diremos alto e bom som que esta política não serve o país.











