
Há longos anos atrás, quando a noite escura do fascismo ainda resistia, a minha avó “Brisa” saía todas os dias de casa com uma pequena panela de esmalte cheia de seringas e agulhas fervidas, e fazia a ronda das casas onde alguém precisava levar uma injecção. Não porque fosse enfermeira diplomada ou coisa que o valha. A avó tinha jeito e sabia que as pessoas só podiam contar com ela. Enfermeiros? Médicos? Isso eram luxos a que não podiam aspirar ali naquela aldeia, então isolada, sem sequer uma estrada pavimentada para poderem chegar facilmente à sede de concelho. Depois veio Abril e, pouco a pouco, fomos tendo serviços básicos que, por essa Europa fora, eram já uma rotina. Tivemos então direito a médico uma vez por semana e, mais tarde, a serviço de enfermagem todos os dias. E por muitas saudades que eu tenha da avó “Brisa” ainda bem que os seus serviços deixaram de ser necessários. Pé da Serra –a minha aldeia- é, como quase todas as do concelho, uma terra envelhecida, sem transportes públicos que permitam a ligação a Nisa. Os seus habitantes, idosos na sua maioria, não têm meios próprios para se deslocar. A presença diária da equipa de enfermagem e o médico duas vezes por semana davam-lhes alguma segurança e ajudavam à sua permanência na aldeia. Agora, tudo isso desaparece: nem médico, nem enfermeiros e, se alguém precisar de ser assistido, que carregue a sua doença até ao centro de saúde de Nisa. Com uma condição: se adoecerem tem que ser nos horários reduzidos do centro de saúde caso contrário serão recambiados para o Hospital de Portalegre.
A partir do próximo dia 1 de Novembro (até na data os coveiros do nosso interior foram certeiros) as populações de Arez, Monte Claro, Falagueira, Montes Matos, Velada, Chão da Velha, Cacheiro, Pé da Serra, Vinagra e Salavessa deixarão de contar com os mais elementares serviços de saúde na sua freguesia e terão que deslocar-se a Nisa. Na mesma data, os horários de atendimento do Centro de saúde serão severamente reduzidos. Estas medidas impostas pelo Conselho de Administração da Unidade Local de Saúde do Norte Alentejano (ULSNA) dão seguimento às orientações de um despacho do ministro da Saúde, do governo PSD / CDS. A aplicação cega dessas medidas não tem em conta a realidade das nossas localidades. Invocam a “racionalização das estruturas, o controlo da despesa, a rentabilização dos recursos humanos, a racionalização da carga horária …” mas fazem-no de uma forma injusta à custa das pessoas, não respeitando a sua dignidade e os direitos consagrados na Constituição da República. Põem em causa a proximidade entre unidades de saúde e utentes. As medidas, que agora pretendem aplicar, aumentam as dificuldades sentidas pelas populações no acesso aos serviços de saúde e são ainda mais gravosas porque se vêm juntar a outras malfeitorias, algumas já anteriormente avançados pelo governo PS / Sócrates.
Na área da Saúde, os critérios economicistas não podem prevalecer sobre os direitos de qualquer ser humano.
Nós no PCP, estamos solidários com as populações que mais irão sofrer com estas medidas e repudiamos as opções políticas de ataque ao Serviço Nacional de Saúde. Perante a violenta ofensiva e o pacote de agressão que o governo PSD / CDS quer impor ao povo vamos intensificar o nosso protesto e luta. Vamos lutar contra estas medidas que atingem os nossos direitos e a nossa dignidade.
ASPIRAMOS A UM PORTUGAL COM FUTURO!
Esmeralda Almeida,
em representação da Comissão Política Concelhia
[Publicado na edição de 28 de Outubro de 2011 do Jornal de Nisa (n.º 30, II Série)]











